ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DO ALUNO COM SURDEZ
Muito
embora a educação inclusiva se localize na esteira temática da educação
nacional desde muito tempo, especialmente com os marcos da Constituição
Federativa Brasileira (1988) e de seus efeitos educacionais no sentido da
inserção no ensino regular das pessoas com deficiência mais sensivelmente a
partir dos anos noventa, a abordagem pedagógica do aluno surdo ocupa um espaço
ainda mais desafiador aos atores educacionais. Para além dos embates entre
oralistas e gestualistas, encontra-se um aluno que possui na maioria dos casos
todo o potencial cognitivo/intelectual de aprendizado, mas, que necessita de um
aporte eficiente para acessar aos conteúdos e poder se desenvolver plenamente
no aspecto pedagógico. Para além da seleção de qual o melhor método de
desenvolver o seu ensino, há a percepção clara da necessidade do
desenvolvimento de práticas pedagógicas consistentes que permitam a equiparação
das suas oportunidades de aprendizado para a nivelação com os demais e para o
aproveitamento de suas potencialidades.
Sabe-se
que as propostas oralistas priorizam a língua dos ouvintes e alijam do
protagonismo ou da divisão dele as propostas que equiparem as necessidades e o
universo do aluno não-ouvinte condensadas em uma língua de aprendizagem. Também
se sabe que uma proposta totalmente gestualista pode, embora priorize a língua
nativa do aluno surdo, que é a de sinais, excluí-lo do aproveitamento e
desvelamento das oportunidades existentes no acesso da língua dominante. Por
essa razão, uma proposta bilíngue é a colocação mais desejada e, em sua
construção reside um verdadeiro desafio metodológico e didático.
Não
existe documentação suficiente sobre as práticas bilíngues no ensino de surdos
na educação brasileira. Seu sucesso em outros países e culturas é reconhecido,
mas, não é possível afirmar na prática se a transposição para o cenário
brasileiro teria essa mesma devolutiva e, mais ainda, as adaptações que são
construídas ou propostas para a sua implantação estão em fase de descoberta e
construção. O bilinguismo está sendo acolhido e adaptado ao Brasil como cenário
de desenvolvimento e sua prática se configura como a tendência mais próxima do
ideal disponível.
O
aluno educado pelo meio bilíngue poderia transitar entre os benefícios da
língua ouvinte e o senso de comunidade e nucleação da língua não ouvinte sem
maiores problemas, contudo, o professor teria de desenvolver um complexo trabalho
pedagógico de adaptação. O Atendimento Educacional Especializado, nesse
sentido, seria a ponte para o atendimento dessas necessidades, não como um
aporte de assistencialismo ou de desenvolvimento em separado das atividades
para que o aluno possa se nivelar, mas como um centro de difusão do
protagonismo dividido entre língua dominante e linguagem de sinais. O AEE
permite tanto a alfabetização com suporte na língua ouvinte (língua portuguesa)
como também oportuniza o aprendizado da LIBRAS e o seu desenvolvimento, podendo
dar suporte tanto a um quanto a outro quadro e desenvolver o trânsito e
fluência do aluno nesses terrenos.
Assim,
nesse sentido, de modo conclusivo percebe-se que o AEE representa a porta de
transição entre os embates oralistas e gestualistas para o ingresso no ideal
bilíngue. Assim como toda a proposta educacional, esse atendimento tem a
necessidade de se focalizar em práticas pedagógicas eficientes que sejam
capazes de superar as diferenças de uso e aplicação presente nas duas línguas, permitindo
e desenvolvendo a compreensão do aluno nesses dois universos. Mesmo que a
presença de um intérprete seja importante e muitas das vezes fundamental, dada
a não fluência comum do professor em LIBRAS e também a quase sempre maior
afinidade do intérprete com aquela língua, o professor deve assumir também no
AEE o papel de protagonista das práticas de ensino e aprendizagem e não as
transpondo para o intérprete, que ali está apenas para tornar melhor a fluidez
da comunicação e os eventuais apoios para a aquisição da língua. Como esses
apoios serão utilizados, a natureza das atividades, a essência das práticas –
todos esses elementos – são proposições fundamentais do professor do AEE que,
nessa interpretação, tem e assume um dos papéis centrais da transposição
oralismo x gestualismo: a de ser o campo de estabelecimento do ideal bilíngue,
algo que deverá ser desenvolvido não apenas com o ensino prático de sua língua
em divisão protagonista com a ouvinte, mas com o desenvolvimento pleno de suas
potencialidades perceptivas, linguísticas e cognitivas.
Referências
DAMÁSIO, M.F.M; ALVES, C.B. Atendimento educacional especializado do aluno com surdez. Cap. 2.
São Paulo: Moderna, 2010.
DAMÁZIO, M. F. M.; FERREIRA, J. P. Educação escolar de
pessoas com surdez-atendimento educacional especializado em construção. Inclusão:
Revista de Educação Especial, p. 46-57,
2009.