quarta-feira, 19 de março de 2014

ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DO ALUNO COM SURDEZ


Muito embora a educação inclusiva se localize na esteira temática da educação nacional desde muito tempo, especialmente com os marcos da Constituição Federativa Brasileira (1988) e de seus efeitos educacionais no sentido da inserção no ensino regular das pessoas com deficiência mais sensivelmente a partir dos anos noventa, a abordagem pedagógica do aluno surdo ocupa um espaço ainda mais desafiador aos atores educacionais. Para além dos embates entre oralistas e gestualistas, encontra-se um aluno que possui na maioria dos casos todo o potencial cognitivo/intelectual de aprendizado, mas, que necessita de um aporte eficiente para acessar aos conteúdos e poder se desenvolver plenamente no aspecto pedagógico. Para além da seleção de qual o melhor método de desenvolver o seu ensino, há a percepção clara da necessidade do desenvolvimento de práticas pedagógicas consistentes que permitam a equiparação das suas oportunidades de aprendizado para a nivelação com os demais e para o aproveitamento de suas potencialidades.
Sabe-se que as propostas oralistas priorizam a língua dos ouvintes e alijam do protagonismo ou da divisão dele as propostas que equiparem as necessidades e o universo do aluno não-ouvinte condensadas em uma língua de aprendizagem. Também se sabe que uma proposta totalmente gestualista pode, embora priorize a língua nativa do aluno surdo, que é a de sinais, excluí-lo do aproveitamento e desvelamento das oportunidades existentes no acesso da língua dominante. Por essa razão, uma proposta bilíngue é a colocação mais desejada e, em sua construção reside um verdadeiro desafio metodológico e didático.
Não existe documentação suficiente sobre as práticas bilíngues no ensino de surdos na educação brasileira. Seu sucesso em outros países e culturas é reconhecido, mas, não é possível afirmar na prática se a transposição para o cenário brasileiro teria essa mesma devolutiva e, mais ainda, as adaptações que são construídas ou propostas para a sua implantação estão em fase de descoberta e construção. O bilinguismo está sendo acolhido e adaptado ao Brasil como cenário de desenvolvimento e sua prática se configura como a tendência mais próxima do ideal disponível.
O aluno educado pelo meio bilíngue poderia transitar entre os benefícios da língua ouvinte e o senso de comunidade e nucleação da língua não ouvinte sem maiores problemas, contudo, o professor teria de desenvolver um complexo trabalho pedagógico de adaptação. O Atendimento Educacional Especializado, nesse sentido, seria a ponte para o atendimento dessas necessidades, não como um aporte de assistencialismo ou de desenvolvimento em separado das atividades para que o aluno possa se nivelar, mas como um centro de difusão do protagonismo dividido entre língua dominante e linguagem de sinais. O AEE permite tanto a alfabetização com suporte na língua ouvinte (língua portuguesa) como também oportuniza o aprendizado da LIBRAS e o seu desenvolvimento, podendo dar suporte tanto a um quanto a outro quadro e desenvolver o trânsito e fluência do aluno nesses terrenos.
Assim, nesse sentido, de modo conclusivo percebe-se que o AEE representa a porta de transição entre os embates oralistas e gestualistas para o ingresso no ideal bilíngue. Assim como toda a proposta educacional, esse atendimento tem a necessidade de se focalizar em práticas pedagógicas eficientes que sejam capazes de superar as diferenças de uso e aplicação presente nas duas línguas, permitindo e desenvolvendo a compreensão do aluno nesses dois universos. Mesmo que a presença de um intérprete seja importante e muitas das vezes fundamental, dada a não fluência comum do professor em LIBRAS e também a quase sempre maior afinidade do intérprete com aquela língua, o professor deve assumir também no AEE o papel de protagonista das práticas de ensino e aprendizagem e não as transpondo para o intérprete, que ali está apenas para tornar melhor a fluidez da comunicação e os eventuais apoios para a aquisição da língua. Como esses apoios serão utilizados, a natureza das atividades, a essência das práticas – todos esses elementos – são proposições fundamentais do professor do AEE que, nessa interpretação, tem e assume um dos papéis centrais da transposição oralismo x gestualismo: a de ser o campo de estabelecimento do ideal bilíngue, algo que deverá ser desenvolvido não apenas com o ensino prático de sua língua em divisão protagonista com a ouvinte, mas com o desenvolvimento pleno de suas potencialidades perceptivas, linguísticas e cognitivas.

Referências

DAMÁSIO, M.F.M; ALVES, C.B. Atendimento educacional especializado do aluno com surdez. Cap. 2. São Paulo: Moderna, 2010.  


DAMÁZIO, M. F. M.; FERREIRA, J. P. Educação escolar de pessoas com surdez-atendimento educacional especializado em construção. Inclusão: Revista de Educação Especial, p. 46-57,  2009.