A condição de surdocegueira envolve a perda
concomitante de audição e visão, total ou parcialmente, de tal forma que a
pessoa passa a experimentar dificuldades em sua vida, necessitando de
adaptações. Acredita-se que a pessoa nessa condição tem no tato um dos
principais recursos para contatar a realidade e nas linguagens adicionais um
recurso efetivo para a sua comunicação. Mas, na realidade prática do indivíduo,
a condição surdocega acarreta uma série de dificuldades que privam o acesso à
educação, cultura e outros fatores que em envolvem uma vida digna e de
qualidade, dependendo de adaptações ou de recursos acessórios para tanto. A surdocegueira requer a compreensão de
que as limitações colocadas pela condição extrapolam a privação sensorial e
afetam a vida dos indivíduos, e isso pode ocorrer tanto na perda total quanto
na perda parcial, desde que seja capaz de promover tal alteração (LAGATI, 1995).
Quanto
a etiologia, ele pode ser diversa, como causada por síndromes variadas (Alport,
Down, Marshall, Leber’s e outras) ou por fatores pré e pós-natais ambientais,
como nascimento prematuro, rubéola, HIV materno e outras condições gerais que
podem tanto antes quanto depois do nascimento comprometer a visão e a audição,
concomitantemente, do indivíduo. O tato é o principal recurso que essas pessoas
se utilizam para conseguir se relacionar com o mundo e conforme a qualidade das
interações que se apresentarem a pessoa poderá ter maior ou menor acesso ao
conhecimento formal, ao aprendizado, a cultura e a fatores relacionais
similares (HELLER e KENNEDY, 1994).
Já
as Deficiências Múltiplas (DMu) são os quadros em que o indivíduo apresenta
deficiências associadas, sendo duas ou mais e é um quadro bastante frequente entre
alunos que tem quadros mais graves, mais acentuados e cujos comprometimentos
tendem a ser intensos, especialmente no que se refere ao seu acesso educacional
e progressão (MEC, 2002).
As
DMU’s podem ser definidas no momento em que se considera o nível de
desenvolvimento, a afetação das possibilidades funcionais e comunicativas, bem
como a capacidade de aprender do indivíduo e suas alterações físicas e sociais,
seus possíveis comprometimentos. Então, não é algo puramente físico, nem
cognitivo. A DMu é uma condição sensorial, física e mental concomitante (REMÍGIO,
2006).
Assim,
quando pensamos no que se diferenciam esses dois conceitos, vemos que enquanto
a surdocegueira é a ocorrência concomitante da perda parcial ou total da
audição e da visão e a abrangência desses comprometimentos, a DMu é um quadro
plural, de mesma forma, mas que não se refere unicamente a dois quadros
(podendo apresentar mais) e que é ancorada em uma tríade de comprometimentos
concomitantes, a saber, físicos, mentais e sensoriais.
Quanto
às necessidades básicas dessas pessoas, educacionalmente,
há muitas semelhanças. No caso do surdocego, o que existe é uma grande
necessidade de desenvolvimento de estratégias de interação com o meio, para que
o aluno possa desenvolver mais eficientemente o aprendizado e especialmente,
seu potencial de comunicação (AMARAL, 2002). Tem a necessidade de elaborar o
seu aspecto de comunicação, especialmente se for uma condição anterior a
aquisição da fala, bem como suas estruturações de percepção de mundo, para que
possam se alocar e organizar dentro de um ambiente cheio de estímulos aos quais
muitos deles não podem compreender, ajustando-se ao ambiente externo (DUARTE,
2000). Já os casos de DMu demandam uma maior tecnologia assistiva, no sentido
de suprir as suas necessidades da tríade física, mental e sensorial,
oportunizando a construção de esquemas de compensação que permitam o seu
aprendizado. Portanto, ambos demandam intensa anamnese e o surdocego requer
amplo suporte didático, metodológico e multidisciplinar, ao passo que os que
possuem surdocegueira têm maior necessidade de adaptações (embora também exista
essa necessidade, para garantia de uma boa equiparação de aprendizagem). De
modo semelhante, requerem suporte para que possam se inserir e se comunicar sem
o uso da linguagem oral ou com adaptações da mesma, por meio de gestos manuais,
faciais, corporais, fotografias, símbolos, qualquer tipo de recurso que venha a
nivelar a sua necessidade de modo temporário ou definitivo, permitindo a sua
interação com o meio e suprindo a sua necessidade.
As
estratégias para o estabelecimento da
comunicação utilizadas em ambos os casos, com metodologias diferentes, para
o desenvolvimento da comunicação e sua aquisição são associadas as tecnologias
assistivas e de comunicação alternativa. Esses são recursos nos quais o
professor interfere para permitir a comunicação, o aprendizado e também o
progresso acadêmico e suas atividades gerais, com adaptações ou modelagens
próprias metodológicas, didáticas ou de qualquer natureza (ROCHA, PLETSCH,
2013). São recursos que também servem para a inserção educacional do aluno em
jogos e brincadeiras complementares e que, por essa razão, servem diretamente
não apenas para o aprendizado, mas para a contextualização social da criança.
São estratégias que variam conforme os casos e o grau de comprometimento
apresentado, realizar pontes de aprendizado para o desenvolvimento do educando
e superação/mediação de seus problemas tanto de comunicação quanto de aquisição
do conhecimento.
Referências
AMARAL,
I. A educação de estudantes portadores de surdocegueira. In: MASINI,E.F.S.
(Org.). Do sentido...pelos sentidos...para o sentido. São Paulo: Vetor editora,
2002. P, 121-144.
DUARTE,
D. F. Aspectos Gerais da surdocegueira. Rio de
Janeiro: Forum. Vol. 1. INES. 2000.
HELLER,
K.W.; KENNEDY, C. Etiologies and Characteristics of Deaf-Blindness.
Clearinghouse on Children who are Deaf-Blind. (1994). Disponível em: <
http//www.tr.wou.edu/dblink/index.htm> Acesso em 11 abr 2014.
LAGATI, Salvatore. " Deaf-Blind"
or" Deafblind"? International Perspectives on Terminology. Journal of visual impairment and blindness,
v. 89, p. 306-306, 1995.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA (MEC).
Estratégias e orientações pedagógicas para a educação de crianças com necessidades
educacionais especiais- Dificuldades acentuadas de aprendizagem. Deficiência
múltipla. Brasília: MEC/SEE, 2002.
REMÍGIO, M. C. et al. Achados
oftalmológicos em pacientes com múltiplas deficiências. Arq Bras Oftalmol, v. 69, n. 6, p.
929-32, 2006.
ROCHA,
M. G. S.; PLETSCH, M. D. O atendimento educacional especializado (AEE) para
alunos com múltiplas deficiências frente às políticas de inclusão escolar: um
estudo sobre as práticas pedagógicas. Revista Aleph, v. VIII, n. 20, dez., p.
226-240.
Parabéns Cida,
ResponderExcluirSeu texto está explicitando claramente a diferença entre Surdocegueira e DMU, trazendo informações enriquecedoras sobre o assunto.